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Entrevista: Thomas Karlsson
Thomas Karlsson** é um erudito em história, religião, mitologia, runosofia e filosofia. Também é o autor de obras contemporâneas seminais dedicadas ao **Cabala, Goetia, Qlipoths e as Runas**. Possui doutorado em história da religião e mestrado em história das ideias pela universidade de Estolcomo, na Suécia. Desde 1996 foi o letrista responsável por diversas canções da banda THERION ([já entrevistados pela Rede Vamp](https://redevampyrica.com/2014/05/16/18-05-therion-no-brasil-tudo-sobre-o-show/)). É o fundador e líder da **ORDO DRAGON ROUGE** , discreta ordem e sociedade mágicko-iniciática que trabalha com o **Caminho da Mão Esquerda**. Recentemente participou do International Left Hand Path Consortium na cidade de Atlanta nos Estados Unidos e organiza palestras e conferências na misteriosa Ilha de Capri na Itália. E hoje concede sua primeira entrevista ao Brasil e América do Sul. aqui na REDE VAMP! **Nossa gratidão em especial a nossa amiga e leitora Daiana (esposa de Thomas) que permitiu tal encontro internético e excelente bate-papo.
**Lord A:. Algumas vezes ao ler seus livros tenho a impressão de que vossa abordagem do LHP e até mesmo das Qlipoth seja um tipo de tradução VIKING destes conteúdos.É como o antigo jeitão dos GODOS de se apropriarem dos simbolos, mitos e ritos temidos por seus adversários e de interpretarem e fazerem uso ao seu favor nos embates. Existe algo assim?
Thomas Karlsson:**Se quisermos descobrir as raízes da tradição da magia negra nos encontraremos os Góticos (Godos) e a Magia Gótica. Os Godos são um povo que as raízes vem do norte. Os míticos povos do norte foram mencionados nos escritos dos antigos gregos. Ao longo da história estes mitos se entrelaçaram com fatos históricos; realidade e fantasia são geralmente difíceis de serem distinguidas uma da outra. A Ordem Dracon Rouge não tem como foco os detalhes históricos mas enxerga a magia gótica (dos Godos) nos termos de seus fundamentos míticos e arquetípicos. O Norte é a representação do lado noturno, o mesmo é válido também para o hemisfério sul. Ambos os polos, norte e sul, são portais para ”O Outro Lado” (na cabala chamado de de Sitra Ahra). Eu tenho minha ancestralidade pessoal vinda de Gottland, uma ilha no mar báltico onde encontramos as mais antigas descobertas da espiritualidade escandináva. Então, de um ponto de vista pessoal este legado tem muito significado, enfatizo que sob tal superfíce encontraremos a mesma corrente draconiana em todas as tradições esotéricas verdadeiras.
Lord A:.**Como o trabalho de Johanes Bureus entrou na sua vida e foi inclusive responsável por um dos seus livros que é o meu favorito.É possível usar magickamente suas runas, armamento e ferramentaria ainda nos dias de hoje? Se pudesse elucidar ou destacar alguns de seus pontos favoritos na obra de Bureus, quais seriam?
Thomas Karlsson: **As contribuições mais importantes de Bureus foram as pontes estabelecidas entre a antiga magia Viking, a sabedoria das runas de Odin e o ocultismo renascentista, com seu novo e aprofundado conhecimento de Magia e Qabalah (através de Pico DeLa Mirandolla, Reuchlin, Agrippa para nomearmos uns poucos). O sistema dele é entretanto mais pragmático se comparado por exemplo com a magia enoquiana de John Dee. Quase tudo no sistema das Adulrunes “nobres runas” de Bureus pode ser aplicado junto com as ideias e métodos da cabala, das tradições tântricas ou ainda dos antigos cultos de mistérios dos gregos. Seu uso das runas é uma ressurgência ou mesmo um reviver das runas como selos para grandes objetivos espirituais.
Lord A:.**Shadowseeds foi um projeto musical de sua autoria que adorei, principalmente no álbum “Der Mitternacht Löwe” e a influência da obra de Bureus é notável alí. Há planos para mais álbuns do Shadowseeds ou ainda novos projetos musicais solo ou com novos parceiros em andamento?
Thomas Karlsson: **Existe muito material para um novo álbum do Shadowseeds algum dia, mas não há planos concretos para isso ainda. Eu colaboro com bandas como Therion, Serpent Noir, Kaamos, Luciferian Light Orchestra e Ofermod. Bandas conectadas com a corrente draconiana. Minha esposa é brasileira e eu estou trabalhando atualmente num projeto com inspirações de Dead Can Dance e Death in June. Meu primo que é um dos primeiros membros da Dracon Rouge e eu temos planos para um projeto de techno draconiano, mas não é uma das nossas prioridades no momento, nosso tempo é tomado pela vida professional, familia e tal.
Lord A:.**2016 as runas são conhecidas em boa parte do mundo e há muitos runólogos – ou pessoas que alegam desenvolver tal atividade.Como tem sido assistir ao redor do mundo este ressurgimento e ampliação do Asatru e Heathen, Deuses Nórdicos e seus valores?
Thomas Karlsson: **O interesse nas runas cresceu ao redor do mundo. Quando que vivia na China encontrei pessoas interessadas nos mistérios rúnicos. Há três grandes épocas do ressurgimento rúnico: A primeira é a Renascença Escandináva com Johantes Bureus como pessoa de maior destaque. A segunda é na Alemanha do século 19 e na Áustria com Guido Von List e outros; a terceira são os anos setenta com o Dr. Stephen E. Flowers que vem a ser o grande foco deste ressurgimento. Algumas pessoas se interessam pelas runas como uma expressão para seu romantismo da era Viking, mas para mim e outros esotéricos, as Runas tem seu valor como selos espirituais que podemos usar assim como aqueles legados pelos antigos gregos, hebreus ou o sânscrito.
Lord A:.**Para você o trabalho de Bureus foi decisivo neste renascimento das Runas? Aliás como foi seu início no que hoje chamamos por comodidade de ocultismo, espiritualidade e magia? O que lhe atraiu no começo e o que te inspira, influencia e motiva no presente?
Thomas Karlsson: **Eu tive experiências astrais quando criança e isso me direcionou para o caminho esotérico. Foi uma parte natural da minha vida e ocorreu quase sempre através de sonhos lúcidos. Na minha infância projeção astral e sonhos lúcidos não tinham nada de sobrenatural para mim, eram como qualquer outra coisa que acontecia comigo. Por volta dos doze anos percebi que aquilo que era nomeado como oculto e suspeito alimentava meu interesse neste contexto. Crescer na Suécia, uma sociedade cristã secular e com um grande número de ateus e uma crença quase religiosa na iluminação, provavelmente me ajudou a me envolver com muitas formas sombrias do ocultismo. O lado negro e a trilha da mão esquerda quebram modelos para tornar cada um hábil para ditar as condições que almeja para sua própria vida. É quase um tipo de existencialismo espiritual, enfatizando a vontade, escolha e responsabilidade. Mesmo assim, na essência sou influenciado pelos valores da minha educação, embora de um ponto de vista prático tenha ido além do paradigma atual e explorado o que hoje é pensado como realidades sobrenaturais.
Eu estou envolvido com o meio esotérico por bem mais de duas décadas e tenho largo interesse neste campo. Minha visão básica é que a realidade é mais complexa do que qualquer sistema possa definir. Nenhuma tradição é perfeita e sempre haverão falhas em todos mapas de realidade, isso é consequentemente necessário para se comparar diversas tradições para encontrar aquilo que é imanente em suas estruturas ocultas. Eu focalizo meus esforços sobre o processo iniciatico na meta-tradição nomeada como o Caminho da Mão Esquerda, a qual enfatiza aspectos sombrios do esoterismo.
As experiências iniciais da então chamada natureza oculta me tornaram interessados nos estudos esotéricos e neles tive diversas influências. Fui inspirado pela tradição kabbalística e especialmente por seu lado negro, conceitos e práticas de sistemas tântricos. As Runas e os mitos nórdicos são uma parte natural do meu trabalho spiritual, assim como a arte surrealista de Dali e Breton me impactaram desde o começo e no meu entendimento do oculto, este inspirou os trabalhos e ideias deles.
Ao longo da minha trilha fiz votos e juramentos ao poder e inteligência máxima que nomeei como “O Dragão”, mas outros místicos poderiam chama-lo de “Deus”. Tenho dois focos principais na vida que são cuidar dos meus filhos, da família e dos amigos; o outro é prosseguir meu trabalho como líder da corrente draconiana neste aeon.
**Lord A:. Todas as pessoas são bem-vindas na Ordo Dragon Rouge? O que é preciso para integrar tal sociedade?
Thomas Karlsson: **Todos são bem vindos na Ordo Dragon Rouge, não importa o antecedente, mas se não trabalhar com lealdade a seus irmãos e irmãs na Ordem você jamais será um membro. Para se estar na Dragon Rouge você deverá deixar para trás o ego infantíl, bem como suas atitudes contraproducentes. Nesta sociedade mantemos nossas mentes abertas, discussões abertas, disciplina e um forte desejo de contribuir e trabalharmos duro por nossos objetivos pessoais e objetivos comuns.
Lord A:.**Já faz mais de uma década que seu livro “Kabbala, kliffot och den goetiska magin” foi publicado, para a gente do REDE VAMP ele é um verdadeiro clássico do gênero – na sua visão quais foram as principais contribuições, influências e desdobramentos desta obra em múltiplos contextos?
Thomas Karlsson: **O livro Kabbala, kliffot och den goetiska magin (_Cabala, Qlifoth e Magia Goética, no Brasil publicado pela Editora Coph Nia_ ) estabeleceu um novo padrão para todo o mundo e oferece em primeira mão uma fonte para o conhecimento sobre nosso campo de atuação, eu gosto de mencionar o meu livro para os magos e os místicos de Estolcomo como uma maneira de conquistar e obter mais conhecimento sobre o trabalho draconiano a partir de perspectivas mais pessoais.
Lord A:.**UPPSALA é impossível não se envolver e se encantar pelo tom respeitoso e de grande vivência que empresta em suas obras a este templo. Pode falar um pouco sobre sua vivência e descobertas por lá?
Thomas Karlsson: **Uppsala é uma das mais antigas cidades universitárias da Escandinávia e também o lugar onde ficou o principal templo de Thor, Odin e Freia mencionado por Bremen em 1076. Na universidade de Upsala estão guardados os manuscritos de Bureus, todos colecionados e organizados e você pode ler eles no bélissimo codex com capa de prata e temática gótica é o Codex Argentius do Século XVI. Lá é um solo mágico e sagrado nórdico e também uma das mais importantes cidades universitárias dos países nórdicos.
Lord A:. **GOTTLAND! Acompanho seus posts e fotos de lá, sei que há um templo da ODR por lá e do profundo respeito que nutrem pela ancestralidade desta ilha. Vamos conhecer mais deste lugar mítico em seus próximos livros?
Thomas Karlsson: **Gotland é o berço de toda espiritualidade nórdica. As mais antigas pedras rúnicas, os retratos em pedra das viagens de Odin pelo mundo, pedras da deusa bruxa e muito mais pode ser encontrado em Gotland. Posteriormente esta tradição seguiu para as terras da Escandinávia. Lá em Gotland você caminha na terra da tradição dos mistérios góticos nórdicos. Eles ainda vivem ao seu redor.
Lord A:.**Thomas, como você vê o uso do termo gótico nos dias de hoje usado para designar estéticas contemporâneas desprovidas e até mesmo sustentando um tom antagônico ou ainda usada sem qualquer relação alguma com os povos Godos e Visigotos ou da distante Gottland?
Thomas Karlsson: **Devemos aceitar algumas tendências e a subcultura gótica de hoje oferece muita coisa boa. Pode funcionar como uma semente para uma compreensão mais profunda dos mistérios góticos dos nórdicos. Para a maioria será apenas uma atitude subcultural, mas para alguns leva à uma compreensão verdadeira.
Os góticos nórdicos (Godos) não eram vistos em termos positivos. Na história