O morcego-vampiro na iconografia Ameríndia
autoria de Shirlei Massapust
1\. — O folclore relativo ao morcego da morte era idêntico em toda a América Central e do Sul, menos no Brasil? Não é possível responder com segurança. Não conhecemos bem o papel do quiróptero na grande diversidade cultural dos índios brasileiros porque todos os códices que poderiam conter informações relevantes foram destruídos.[1] Porém, ainda existem uns poucos vestígios iconográficos. Bem pequenos e, por isso mesmo, alvo fácil de roubos e contrabandos, os muiraquitãs, quase sempre confeccionados em rochas esverdeadas, tinham em geral forma de sapos. Mais raramente, podiam ser talhados também em rochas brancas, em formatos de morcegos, peixes e homens. Associados à cerâmica conduri, os muiraquitãs não são exclusivos da região do Baixo Amazonas. Há informações de sua ocorrência na ilha de Marajó, além de Santarém, Alto Tapajós, norte de Manaus e até nas Guianas e ilhas do Caribe, segundo o professor Eduardo Góes Neves, do Museu de Arqueologia e Etnologia (MAE) da USP.
A distribuição de muiraquitãs por uma ampla área indica que as populações amazônicas do início do segundo milênio da era cristã não estavam isoladas, e sim integradas em redes de comércio ou em outros tipos de redes que permitiam o contato entre si.[2]
A tradição oral fornece dados mais animadores. A palavra andaraí, que designa no Brasil muitos municípios, bairros e ruas, significa “rio dos morcegos” na língua dos índios cariris, povo indígena com presença marcante no passado, principalmente nos Estados do Ceará, Paraíba, Pernambuco e Rio Grande do Norte. É um mito bastante conhecido no Brasil o de que o vampiro bate as asas sem parar quando quer morder um homem adormecido para sugar-lhe o sangue sem despertá-lo. Num mito análogo dos índios chamis, aparentados com o grupo choko da cordilheira dos Andes colombianos, o herói mítico Aribada mata o morcego Inka (o vampiro) a fim de assenhorear-se de seu poder de adormecer suas vitimas. Tendo obtido sucesso, Aribada passa a entrar durante a noite “onde houver mulheres adormecidas” e pôr-se a agitar um lenço branco e o outro vermelho “para poder abusar delas sem que o percebam”.[3] Paralelamente, nas lendas de muitos índios americanos da região do Norte do país, o morcego aprece na situação de herói galante, defensor da humanidade em crise.[4] Os tupinambás acreditam que o fim do mundo será precedido pela desaparição do Sol, devorado por um morcego. (La religion des Tupinamba; Paris, 1928).
O folclore brasileiro tem muito em comum com a extinta cultura Maia. O capetinha Hu r Aqan Tukur (Coruja de uma perna) é um candidato bem mais promissor ao cargo de saci-pererê que o ‘fradinho da mão furada’ português, que sempre foi bípede. Vuqub Kame (Sete Morte) não difere de sua tradução abreviada, “Seu Sete”, e o acesso à Xibalba (o Inferno) sempre esteve numa encruzilhada. Seu subalterno Kama Zotz (Morcego da Morte) é o mesmo espírito do Morcego que os negros classificaram como exu, que ainda fuma o mesmo tabaco incorporado nos “cavalos” ou médiuns, substitutos dos xamãs.
O excêntrico acervo do Museu de História Natural Wilson Estevanovic, em Uberaba, MG, detém uma criatura de 35cm de estatura composta de restos mortais de animais diferentes; com corpo de símio esticado para tomar a posição ereta humana, garras em todos os dedos e asas de morcego separadas dos braços.[5] O atual proprietário, Wellington Estevanovic, não sabe ou não quer informar à imprensa quem vendeu o artesanato ao seu falecido pai, dando margem às teorias de ufólogos que afirmam se tratar de um fóssil da raça de índios-morcego citada no best-seller de Raymond Bernard, A Terra Oca.
Minha humilde opinião é que a criatura do museu mineiro é um boneco, mas tem caroço neste angu! Em missiva publicada em 1969 o nova-iorquino Carl Huni narrou ao seu correspondente Raymond Bernard o que ouviu dos brasileiros sobre uma comunidade auto-suficiente de “índios-morcego” que “vivem em cavernas e saem à noite para a floresta circunvizinha”.[6] Tais índios estariam sendo responsabilizados pelo desaparecimento de pessoas.
A entrada das cavernas é guardada pelos índios Morcegos, que são de pele escura e de pequeno porte, mas de grande força física. Seu sentido do olfato é mais desenvolvido do que o dos melhores cães de caça. Mesmo se eles o aprovem e lhe deixem entrar nas cavernas, receio que estará perdido para o mundo presente, porque guardam o segredo muito cuidadosamente e não podem permitir que aqueles que entram possam sair.[7]
Estes índios-morcego mitológicos não devem ser confundidos com os Huni Kuî apelidados pelos portugueses de Kaxinawá (Povo Morcego). Segundo Carl Huni, as cavernas que eles habitam Estão próximas do rio Araguaia, “no sopé de uma cadeia de montanhas tremendamente comprida chamada Roncador”.[8]
Quando estive no Brasil ouvi muito sobre as cavernas (…). Desisti de fazer outras investigações por que ouvi dizer que os índios-morcego guardam zelosamente a entrada dos túneis contra as pessoas que não estejam suficientemente desenvolvidas, a fim de evitar aborrecimentos. Em primeiro lugar não querem ninguém que esteja ainda enredado em comércio e que queira ganhar dinheiro.
Sei que uma boa parte dos imigrantes que ajudou na revolta do General Isidoro Dias Lopes, em 1924, desapareceu nestas montanhas e nunca mais foi vista novamente. Foi sob o Governo do Dr. Bernardes, que bombardeou São Paulo durante quatro semanas. Finalmente fizeram uma trégua de três dias e permitiram que 4.000 praças, que eram principalmente alemães e húngaros, saíssem da cidade. Cerca de 3.000 deles foram para o Acre, no noroeste do Brasil e cerca de 1,000 desapareceram nas cavernas. Ouvi a história muitas vezes. Se me lembro bem do local onde desapareceram foi na extremidade sul da Ilha do Bananal.**[9]
Em 1930 o antropólogo Carlos Estêvam de Oliveira esteve fazendo pesquisa de campo entre os índios Apinajés do Alto Tocantins na intenção de registrar sua rica tradição oral. Estes índios acreditam que, num passado remoto, todas as aldeias habitadas por seus numerosos ancestrais se reuniram para invadir e incendiar certa caverna que servia de abrigo a uma “kupe” ou “tribo estrangeira” composta de homens-morcego, intitulada Kupe Dyep.
Tal ardil foi necessário porque os Dyep costumavam degolar as pessoas e animais que pernoitavam próximo à gruta com uma arma branca chamada Ihering, “machados de lua” ou “machados de âncora”, devido à sua forma semicircular.[10] Ou seja, aqueles imigrantes utilizavam uma foice similar a esta lâmina sacrifical em meia-lua, na forma de morcego, representada num pingente de Tolima, Colômbia.
Um missionário chamado Curt Nimuendaju entrevistou os mesmos índios em data próxima e parece tê-los enfastiado com massivo preciosismo, pois obteve uma versão detalhadíssima. Este segundo relato foi compilado por Robert H Lowie em The Apinayé (Washington, 1939) e anexado à obra de referência de Alberto da Costa e Silva, Antologia de Lendas do Índio Brasileiro (Brasil, 1957).
Tanto na versão abreviada compilada por Carlos Estêvam de Oliveira quanto no produto da investigação de Curt Nimuendaju os Apinagés estão convencidos de que os índios-morcego da Kupe Dyep deveriam ser capazes de voar porque seus ancestrais viram suas asas e, à época, um menino encontrou um círculo de pegadas em torno de uma vítima cujos rastros não se estendiam mata adentro. Além disso, eles escapuliram por um buraco no teto da caverna de forma tão ágil que seus perseguidores não os puderam tocar. O tempo e a imaginação colorida dos narradores de lendas se encarregou de fazê-los dormir de ponta cabeça por causa das muitas varas suspensas encontradas na caverna.
Sou se opinião que os Dyep históricos, se existiram, não eram homens híbridos ou quimeras, mas imigrantes estrangeiros que decidiram abrigar-se numa caverna pertencente ao território Apinagé devido à falta de tempo ou paciência para construir moradias mais sofisticadas. Talvez tivessem um objetivo passageiro e específico, como colher plantas úteis ao culto pré-colombiano que só nascem em território brasileiro. Muitos deles, senão todos, andavam vestidos como morcegos, da mesma forma que este xamã representado numa cerâmica Nazca:
Repare que o xamã de Nazca segura o busto de uma criança sacrificada com a mão esquerda, uma lâmina com a mão direita e parece cantar ou orar, pois está de boca aberta. De acordo com os Apinajés, os Dyep também sacrificavam seres humanos com a foice de cabo curto chamada Ihering, provavelmente como parte de um rito religioso. Para isso seqüestravam nativos desatentos. Mas os Apinagés decidiram se reunir para eliminar o inimigo em comum.
**No sertão de São Vicente, que se estende próximo ao Araguaia, existe a montanha Morcego. Nela há uma grande caverna com uma entrada em baixo, enquanto que bem no alto há uma espécie de janela. Ali moravam antigamente os Kupe-dyep. (…) Durante muito tempo os Apinagés evitaram passar a noite naquela região, até que um dia dois caçadores e um menino decidiram acampar ao pé da rocha do Morcego. Depois do anoitecer, ouviram cantos vindos de dentro da montanha. Então o menino ficou assustado e se escondeu em uma moita longe do acampamento dos dois homens. Logo após, os morcegos (…) mataram os dois caçadores, mas o menino escapou, e na aldeia contou o que ocorrera.
Então os guerreiros Apinagés (…) saíram juntos para destruir os Kupe-dyep. Quando eles chegaram à rocha do Morcego, imediatamente ocuparam a entrada da caverna, onde amontoaram lenha (…) e puseram fogo à pilha. Assim os kupe-dyep voaram em atropelo pela abertura superior, sem serem feridos pelas setas dos Apinagés. Eles voaram pra o Sul, e diz-se que ainda estão vivendo em algum lugar por lá.**[11]
A habilidade de escalar os paredões íngremes das montanhas para depositar oferendas nos altares erigidos nos picos sagrados das Américas era condição indispensável para alguém se tornar xamã. Portanto não é nada admirável que os índios-morcego, surpreendidos ao mesmo tempo pelo fogo e por uma chuva de flechas, escalassem as paredes pedregosas da caverna na direção da única saída disponível com velocidade ímpar. E se suas asas falsas eram suficientemente flexíveis para ‘bater’ pelo impulso dos movimentos violentos eles certamente pareciam voar parede acima por trás da cortina de fumaça. Tempos depois alguém avistou os Dyep acampando “no sul” e supôs que eles “voaram” para lá.
Os guerreiros Apinagés apreenderam machados e “inúmeros enfeites” abandonados na gruta pelos fugitivos. Um velho foi capturado e morto.[12] “Um menino de cerca de seis anos de idade” foi encontrado “bem no fundo da caverna, escondido por uma pedra”.[13] Este menino viveu pouco. Porém, enquanto viveu revelou-se um pródigo doutrinador determinado a ensinar aos adotantes alguns costumes do seu povo. Era possivelmente um filho de xamã ou jovem aprendiz:
Um dia eles o observaram deitado no chão cantando. “U-ua Klunã Klocire! Klud pecetire!” Então, ele agarrou o cangote com as mãos. Quando os Apinagés perguntaram-lhe sobre isto, disse que seus companheiros de tribo dançavam daquele modo. Os Apinagés ainda cantam a canção do Kupe-dyeb.[14]
Noutra ocasião o menino ensinou-os a mímica do morcego:
O pequeno Kupe-dyep (…) chorava e olhava constantemente para o céu. Como não queria deitar-se de modo algum, seu dono teve subitamente uma idéia. Lembrou-se de que na morada dos Kupe-dyeb não havia camas no chão nem tão pouco postes para dependurar redes, mas havia muitas vigas horizontais. Trouxe um varapau e o colocou horizontamente apoiado nas forquilhas de galhos de duas pequenas árvores vizinhas. Logo que o menino viu isso, trepou em uma das árvores de tal modo que se dep