Que tipo de efeito placebo é produzido no corpo e na mente de pessoas que acreditam estar consumindo diabos? Certa vez Cao Zhi, um notório poeta chinês da época dos três reinos (220-280), escreveu um poema intitulado _Sobre os Morcegos_ , onde fantasia que “o morcego nasceu dum espírito maligno, enxotado pelos [outros] mamíferos e rejeitado pelas aves”. Em época posterior foram escritos livros de medicina tradicional cujos autores afirmam que os morcegos são capazes de viver mil anos e, quando chegam nesta idade, embranquecem até ficar da cor da neve. Se um médico capturasse um morcego albino e desidratasse o animal, poderia produzir um elixir (dissolvendo morcego em pó na água) capaz de aumentar a vida dum paciente em dez mil anos!
Claro que ninguém jamais achou o mítico morcego mágico, mas na medicina popular chinesa também existem receitas de remédios produzidos com morcegos comuns que servem para tratar crianças da tremedeira causada pelo medo… No taoísmo Fú (?), o deus da fortuna, anda sempre junto com Lù (?), deus da prosperidade, e Shòu (?), deus da longevidade. Fú (?) não é um deus morcego, mas talvez seja uma mera questão de tempo até que ele se torne um, tamanha é a freqüência com que os orientais e entusiastas da cultura oriental substituem o ideograma Fú (?), que significa “fortuna”, por Fu (?), abreviação de bianfu (??), que significa “morcego”, ou pelo desenho de um morcego nos popularíssimos amuletos de boa sorte. Por que isso? Pode ser coincidência. Ou talvez o costume derive de implicações políticas e econômicas.
Grandes colônias de morcegos favorecem a agricultura porque todo morcego tem no intestino três bactérias que lhes permitem digerir o que come. Graças a estas bactérias o ser humano consegue usar o guano (excrementos) dos morcegos para induzir a fermentação de resíduos orgânicos que formam um adubo muito bom em apenas sete dias, sem exalar gás metano. O nitrato de potássio formado naturalmente pela decomposição do guano de milhares morcegos aglomerados nas cavernas do Laos e da China era a matéria prima usada em maior quantidade (entre 72% e 78% da mistura) na produção da pólvora usada pelos soldados chineses e samurais japoneses para carregar armas de fogo, produzir fogos de artifício, etc. Quanto mais nitrato de potássio, mais potente era a explosão. Misturada com enxofre e carbono, a pasta de guano era seca e solidificada, passando à forma de um pó [1].
O Japão dependia da importação do nitrato de potássio da China devido à falta de recursos naturais adequados para a produção nacional. (Ou seja, não tinha morcegos em quantidade suficiente). Portanto os quirópteros geravam lucro para os chineses exportadores de guano no sentido literal do termo… Se for esta a razão da associação entre o morcego e a fortuna, então o morcego chinês pode ter se tornado um totem da guerra.
Na segunda metade do século XX, no Brasil, especialmente no Rio de Janeiro, havia médiuns que usavam pólvora quando incorporados, para produzir fumaça em rituais e festas de Exu. (Isto é vendido em lojas de Umbanda). Por que isso? Todo mundo já viu cenas fictícias, no cinema ou na TV, onde falsos vampiros se transformam em ectoplasma cenográfico (uma grossa fumaça branca produzida pela imersão de gelo seco em água quente) e falsos ninjas desaparecem numa nuvem de fumaça artificial depois de jogar cápsulas no chão. (A pólvora do ninja falso era verdadeira). Fora de contexto o efeito era o mesmo: Alguém sumindo de vista ao ser encoberto pela fumaça.
Morcego Vampiro: Origami de Dao Cuong Quyet.
(Foto © 24/09/2009, Carlos?? e Flickr)
Atualmente quando os japoneses importam arte européia ou norte-americana citando o Grim Reaper inglês, ou outras representações do anjo da morte, os tradutores utilizam o termo shinigami (??) que é uma espécie de deus da morte nipônico. O caso do vampiro é mais complicado. O genuíno folclore oriental que gira em torno da figura dos morcegos tem pouca ou nenhuma relação com o vampiro europeu. Nas mais antigas fontes japonesas o morto redivivo se chama kyonsh? (?????), uma transliteração imperfeita do chinês jiangshi (??) que significa _rigor mortis_. Este morto vivo importado da China não muda de forma, não vira morcego e é extremamente parecido com o _draug_ do folclore viking. Por outro lado, difere muito do vet?la hindu.
Por causa dos poderes do Conde Drácula e seus imitadores, os estúdios nipônicos preferem não chamar o vampiro estrangeiro de kyonsh? (?????), mas sim de _kyuketsu_ (??) que significa sanguessuga. O novo _kyuketsu_ pode evoluir de morcego [2] para a forma de imperador (my?-? ??) e depois para deus (?). A garotada ocidental pensa que o personagem é um diabo ou deus maligno, mas no xintoísmo bem e mal são pontos de vista e o Drácula estilizado em certos desenhos realmente se torna um deus. O mais curioso é que um humano (ningen ??) pode vencer o anjo (tenshi ??) ou o deus (?), assim como o anjo vence o deus, mesmo que seja o Lúcifer [3] de _Digimon IV_ ou o Raziel da saga coreana _Soul Reaver_. Tudo depende do lado da contenda que o religioso ou jogador de videogame defenderá durante o culto ou o jogo.
Sobre o caráter dúbio do morcego no Japão
A coletânea _Homem, Mito e Magia_ , compilou uma curiosa parábola: “Os chineses, preferindo uma posição mais amena em relação ao morcego, afirmam que ele voa com a cabeça baixa, por causa do pese do seu cérebro”. [4] Jean Chevalier e Alain Gheerbrant três outros livros da década de 50 sobre as crenças dos chineses e vietnamitas, produzindo um resumo mais completo:
A _fortificação do cérebro_ , praticada pelos taoístas e representada pela hipertrofia craniana, é uma imitação do morcego: Acredita-se que ele a pratique, razão pela qual o peso de seu cérebro o obriga a ficar pendurado… Com a cabeça para baixo. Não há nada de surpreendente no fato de que constitua, ele próprio, um alimento propiciador da imortalidade. Além do mais, as _fortificações_ às quais ele está associado e a obtenção consecutiva da longevidade estão, muitas vezes, ligadas a práticas eróticas: O morcego é usado na preparação de drogas afrodisíacas, virtude reconhecida por Plínio, embora ele a atribuísse ao sangue do animal. [5]
Na China o morcego simboliza uma vida longa e cheia de êxitos [6]. Então “nas gravuras chinesas, encontra-se muitas vezes um cervo perto de um morcego. Ele está figurado na vestimenta do gênio da Felicidade. Cinco morcegos, dispostos em quincunce, representam as Cinco Felicidades (wou fou): Riqueza, longevidade, tranqüilidade, culto da virtude (ou saúde), boa morte”. [7]
No Taoísmo a luz e as trevas foram criadas na forma de dois morcegos pelos imortais Zhong Gui (??) e Zhang Guolao (???) [8]. Por isso Zhong Gui é guiado por um morcego quando representado na decoração dos festivais do barco do dragão e do ano novo chinês. Em mandarim hóng (?) é a cor vermelha, mas também um adjetivo para alguém estimado ou patrocinado por outrem. Lanternas vermelhas estampadas com a palavra fortuna (Fú?) também são usadas nos festivais. Assim como a fortuna (Fú?) foi relacionada com o morcego (bianfu ??), trocadilhos sobre a pronúncia da cor vermelha (hóng ?), homófona da grandeza (hóng ?), fizeram com que a lanterna de papel fosse às vezes feita na forma de um morcego vermelho.
Samurais: 1) Ilustração de Yoshitoshi. 2) Ilustração de Utagawa Kunisada pintada na coletânea Concurso de Cenas Mágicas de Toyokuni (1863).
Uma lanterna apagada [9] de um samurai feiticeiro infrator apareceu em maio de 1863, na coletânea _Concurso de Cenas Mágicas de Toyokuni_ (???????). A cena foi pintada pelo célebre artista Utagawa Kunisada (1786-1865), autorizado pelo imperador a conjugar duas coisas que eles não gostavam: Um morcego e um ronin (samurai sem amo). O modelo Arashi Kichisaburo III posou interpretando o infrator Akatsuki Hoshigoro, filho de Nitta Yoshisada. É claramente perceptível que o tamanho da teia de aranha e das flores ao fundo é desproporcional em relação ao homem e proporcional em relação ao morcego. Logo, esta ilustração exibe um morcego de tamanho normal montado por um homem diminuto. Seja por artifício mágico ou licença poética, o homem que perdeu sua honra e dignidade encolheu a si mesmo e apagou sua própria lanterna para não ser descoberto em atividades escusas na calada da noite.
Embora o Xintoísmo tivesse problemas de interação com o Budismo e vice versa, o bom morcego sobrevoa o confuso sincretismo religioso ostentado pelos samurais (que precisavam ser ao mesmo tempo xintoístas, budistas, taoístas, etc.) porque a eficácia das armas dependia duma política de reações publicas adequada com a China. A figura do morcego e a habilidade do samurai se confundiram novamente numa ilustração cômica de Yoshitoshi (1839-1892) onde um quiróptero esgrimista foi derrotado por outro da mesma espécie, portador de guarda-chuva [10] que, aliás, lembra muito o morcego Yasu, personagem narrador do desenho _Don Drácula_(1982). O processo de inversão valorativa do totem chinês no Japão – trabalhado pela oposição política – era inevitável, pois ninguém gosta de pagar impostos, especialmente quando a verba auferida é gasta na importação de suprimentos militares. Os artistas já desenhavam entes mitológicos com características animalescas porque estavam acostumados com o trato dos bichos nas fazendas, pesca e caça. Portanto foi fácil dar asas de morcego ao y?kai (??) e outras criaturas relacionadas à morte, ao medo e fantasmagorias.
1) Escultura “Mulher Morcego” (???????) de Akemi Kai. (Foto e arte © 1995, Akemi Kai). 2) Fotografia de Ryo Yoshida duma escultura de Katan Amano, no livro Katan Doll (2007).
O totem da fortuna
Considerando os preços de vários bonecos de venda bem sucedida, parece que os morcegos e vampiros realmente trazem sorte e fortuna para certas micro-empresas da Coréia do Sul. De acordo com os registros, o grupo Soom [11] produziu uma mulher morcego, de nome Migma, por bizarros U$ 1897,00. Ela vendeu tanto que o prazo para pedidos teve de ser limitado em poucos dias! O mesmo aconteceu com Monzo, vendido por U$ 1324,00 (na cor cinza) ou polido por U$ 1344,00 (na cor branca) e com um par menor: O menino morcego chamado Grit custou U$ 689,00 e Syen, a menina da mesma espécie, era U$ 658, já polida, pintada e vestidas. A Bianca da Iple House teve o mesmo sucesso, custando de U$ 1367,00 a U$ 1404,00, dependendo da cor… A Soul Doll [12] lançou um gárgula humanóide por U$ 1060,00 cuja cabeça era escolhida entre dois modelos: Kyle ou Amon.
A propaganda representa uma variante da Carta XII do tarô de Marselha, que tradicionalmente contém o desenho dum homem enforcado pelo pé de cabeça para baixo. O artista coreano achou que a posição do humano na carta européia lembra a de um morcego pousado num galho. Então idealizou “O Enforcado” como um homem morcego. Uma gargantilha do tipo coleira no pescoço representa a forca. Quem já leu qualquer uma das versões dos _Vinte e Cinco Contos do Vampiro_ (tibetano _Baital Pachise_ ou hindu _Vetala Panchavimshati_) certamente se lembrou do jovem oleiro condenado à morte por causa da denúncia caluniosa do vilão da estória, que foi enforcado numa árvore si?sapa e se transformou em vampiro para vingar a própria morte e salvar o rei. Porém isso não explica as duas versões do enforcado. Será que Kyle ama Amon e ambos foram injustiçados pela injúria da homofobia?
Kyle (Foto oficial © 2010, Soul Doll) e Monzo (Foto oficial © 2010, Soom).
Por mais absurdo que pareça a hipótese de haver criticas teológicas e sociais em propagandas de brinquedos de luxo, é notoriamente perceptível que quem escreveu o anúncio da Migma contém uma adaptação critica do quinto item do _Alfabeto de Ben Sira_[13] e não era só isso que o artesão conhecia sobre a tradição medieval. O artista coreano teve a sensibilidade de