_[O adepto teórico dirá]: Estou posicionado no oeste. Eu sou a escuridão. Meu traje é negro. Eu carrego a espada justiceira e minha bandeira é o crepúsculo._— Cipher Manuscript, folha IV.
_Como até o momento não tivéssemos visto o corpo do nosso falecido pai, prudente e sábio, afastamos o olhar para um lado e ao erguermos a chapa de bronze, encontramos um corpo formoso e digno, em perfeito estado de conservação, tal qual uma contrafação viva do que aqui se encontra com todas as suas vestimentas._ — Fama Fraternitatis (Cassel, 1614).
_Fantasmas sombrios apareceram ante mim: Hydras, Lamias e serpentes cercaram-me. A visão da espada em minha mão dispersou completamente a lasciva mesmo enquanto os primeiros raios da luz dissipavam os frágeis sonhos noturnos de criança._ — La Très Sainte Trinosopie, folha LII.[1]
_A lenda (…) ensina a lei terrível que faz com que aquele que auxiliaste e instruíste se revolte contra vós e procure matar-vos, segundo a fórmula da besta humana: “O iniciado matará o iniciador”._ — Ritual do Grau de Mestre Maçon.[2]
Edward Alexander Crowley (1875-1947) publicou o opúsculo De Arte Mágica (1914) no mesmo ano em que foi proclamado chefe da sessão britânica da Ordo Templi Orientis (O.T.O.); anos após haver sido iniciado no Templo Ahathor da Ordem Hermética da Autora Dourada (G.D.). Foi para este novo público que ele descreveu com certo exagero, na qualidade de testemunha ocular, “um método de vampirismo comumente praticado” por cinco membros da antiga ordem. Samuel Liddell Mathers (1854-1918) e sua esposa Mina Bérgson (1865-1928), irmã do filósofo Henri Bergson (1859-1941), fundaram o Templo Ísis Urânia, sediado em Londres, em 1888, e o Templo Ahathor, na França, em 1893. O médico homeopata Edmund William Berridge (1843-1923), que testemunhou contra Crowley num processo, pertencia ao templo Isis-Urania. Os outros dois espiritualistas, Theodore e Frank Dutton Jackson (Mr. e Mrs Horos) atingiram grande prestígio no Ahathor.
It may not be altogether inappropriate to allude to a method of vampirism commonly practiced. The Vampire selects the victim, stout and vigorous as may be, and, with the magical intention of transferring all that strength to himself, exhausts the quarry by a suitable use of the body, most usually the mouth, without himself entering in any other way into the matter. And this is thought by some to partake of the nature of Black Magic. The exhaustion should be complete; if the work be skillfully executed, a few minutes should suffice to produce a state resembling, and not far removed from, coma. Experts may push this practice to the point of the death of the victim, thus not merely obtaining the physical strength, but imprisoning and enslaving the soul. This soul then serves as a familiar spirit. The practice was held to be dangerous. (It was used by the late Oscar Wilde, and by Mr. and Mrs. “Horos”; also in a modified form by S.L. Mathers and his wife, and by E.W. Berridge. The ineptitude of the three latter saved them from the fate of the three former.)
Pode não ser totalmente inapropriado aludir a um método de vampirismo comumente praticado: O Vampiro deve selecionar uma vítima forte e vigorosa com a intenção mágica de transferir toda aquela força para si mesmo, exaurindo a presa pelo uso adequado do corpo, mais usualmente pela boca, sem que ele próprio penetre de qualquer outra forma dentro do útero.[3] Alguns pensam que esta prática partilha da natureza da Magia Negra. A exaustão pode ser completa; se o trabalho for executado com perícia, alguns minutos serão suficientes para produzir um estado semelhante, e não muito longe, do coma. Os mais experientes podem prosseguir nesta prática até o ponto da morte[4] da vítima, obtendo assim não apenas a força física, mas aprisionando e escravizando a alma. Esta alma então servirá como um espírito familiar. Esta prática é tida como perigosa. (Ela foi usada primeiro por Oscar Wide e por Mr. e Mrs. “Horos”; também em uma forma modificada por S.L. Mathers e sua esposa, e por E. W. Berridge. A inaptidão dos três últimos salvou da fatalidade os três primeiros).[5]
Certa vez Gerard Kelly (1879-1972), cunhado de Crowley, queixou-se da má sorte de uma amiga que havia hospedado “uma vampira feiticeira que estava esculpindo uma esfinge para um dia dar vida à coisa e fazê-la obedecer seus desejos malignos”.[6] Crowley quis ver a mulher imediatamente e foi assim que ele conheceu Mina Bérgson. Ela vivia hospedada na casa de “Mrs. M” que, salvo engano, era Violet Mary Firth Evans (1890-1946). Embora Kelly tenha lhe advertido sobre as armadilhas da Senhora Mina, o “mago branco” ficou encantado com a erudição da “maga negra” e sexualmente atraído por sua beleza. A estória do confronto de Crowley com Mina foi romanceada por John Frederick Charles Fuller (1878-1966) e depois compilada pelo protagonista em sua autobiografia.[7]O que realmente ocorreu neste dia é que Crowley foi convidado a ingressar na Ordem Hermética da Aurora Dourada. Ele detestava Samuel Liddell Mathers, esposo de Mina, mas tentava fazer tudo que o outro fazia. Certa vez Haweis lhe falou sobre a viagem de Mathers ao México, onde o mestre aprendeu sobre os deuses antigos sedentos de sangue. Crowley viajou para o longínquo continente, seguindo seus passos, e voltou de lá felicíssimo, com uma pilha de livros, pronunciando discursos que só causavam tédio aos ingleses. Depois ele tentou resumir o The book of the Sacred Magick of Abra-Melin the Mage, editado por Mathers, mesmo sabendo que não existiam superiores desconhecidos, que boa parte da doutrina secreta foi importada das Américas e que a cúpula da sociedade explorava a máxima omne ignotum pro magnifico. Apesar de todos os seus esforços e malogros, Crowley jamais conseguiu obter favores sexuais da Imperatrix Mina (provavelmente ele nunca tinha ouvido um “não” de uma ‘mulher escarlate’). Finalmente, ele se vingou roubando-lhe a amiga que patrocinava suas custas, digo, libertando a mocinha em perigo da influencia da feiticeira.
No De Arte Mágica (1914) Crowley afirma que o vampirismo não faz parte dos ritos da O.T.O. Porém Kenneth Grant (1924-2011) foi iniciado por ele na O.T.O. em 1944, salvo engano, e na Astrum Argentum em 1946. Seu livro mais famoso, “O Renascimento da Magia” (1972), contém um capítulo onde ele usa o termo “vampirismo” para descrever dois rituais da O.T.O. que envolvem ingestão de sangue humano. Um é a Missa da Fênix ou Liber XLIV, publicado primeiramente por Crowley, onde o mago “corta seu peito e absorve seu sangue oralmente” (nas palavras de Grant). O outro ritual não foi nomeado. Ele só informa que é ensinado no Soberano Santuário da O.T.O. e, neste, o mago “consome a hóstia embebida em sangue”.[8] (Deve ser o tal ‘bolo de luz’).O erudito pesquisador Colin Wilson escreveu que Crowley limou os dentes caninos, deixando-os bem pontiagudos, e quando encontrava mulheres costumava dar o “beijo da serpente”, mordendo-lhes o pulso ou a garganta com suas presas.[9] Eu sei lá de onde ele tirou essa informação, mas não deixa de ser tão interessante quando os outros casos compilados no livro de não ficção “O Oculto” (1971). Se você for procurar as obras de Colin Wilson aproveite e leia também o romance “Vampiros do Espaço” (1976).
Declarações dos acusados
Será que podemos confiar em Crowley? Em 1914 todos os “vampiros” supracitados eram seus inimigos pessoais, menos Oscar Wilde (1854-1900) que foi elogiado como um praticante mais competente do que os outros “em seus anos finais”! Isso é interessante porque, em 1878, aos vinte anos, Florence Balcombe (1858-1937) rompeu um noivado de três anos com Oscar Wilde para aceitar a proposta de casamento de Bram Stoker (1847-1912). Este último deixou anotações de próprio punho descrevendo pelo menos um pesadelo onde uma mulher vampiro com as características físicas de sua própria esposa lhe sugava o sangue. Foi daí que surgiu a déia de escrever o romance Drácula (1897); primeira obra impressa a sugerir que “um ramo de rosa silvestre” depositado sobre o esquife de um vampiro “o mantém preso e imobilizado”.[10] Daí a inevitabilidade do leitor rememorar a passagem da Fama Fraternitatis (1614) onde o cadáver de Christian Rosenkreuz se encontra miraculosamente preservado “em perfeito estado de conservação” selado numa tumba cofre decorada com símbolos rosa-cruzes.[11]A coincidência entre o nome de batismo de Mina Bérgson e o apelido da personagem Wilhelmina Murray Harker, vulgo Mina Harker, é um tanto curiosa. Em 1954 um informante de Louis Pauwlers e Jacques Bergier chegou a teorizar que Stoker foi um dos escritores filiados à Ordem Hermética da Aurora.[12] O autor do prefácio da edição brasileira de The Lair of the White Worm (1911) concorda com os franceses e afirma que Stoker chegou a escrever em notas particulares sobre seu encontro com “sugadores de sangue” e “vampires personalities” em Londres.[13] Mas não há provas documentadas de que ele sequer conhecesse tais pessoas.Em dado momento Samuel Liddell Mathers acrescentou o título de Conde de MacGregor ao seu nome e, em 29 de outubro de 1896, ele publicou um manifesto afirmando a existência de um terceiro nível na ordem:
Creio, no que me concerne, que eles são humanos e que vivem nesta terra. Mas possuem espantosos poderes sobre-humanos. Quando os encontro em lugares freqüentados, nada em suas aparências ou vestimentas os separa do homem comum, salvo a sensação de saúde transcendente e de vigor físico. Em outros termos, a aparência física que deve dar, segundo a tradição, a posse do elixir da longa vida. Ao contrário, quando os encontro em lugares inacessíveis ao exterior, trajam roupas simbólicas e as insígnias de suas ordens.[14]
Esta declaração indignou os veteranos da loja Isis-Urania e atraiu calouros para Ahathor cujas expectativas eram mais compatíveis com aquele universo de fantasia. Crowley foi enviado por Mathers para dirigir a facção londrina, em 1900, mas foi prontamente expulso de lá por Willian Butler Yeats (1865-1939). Em 1901 o casal Jackson foi condenado judicialmente por estelionato em concurso com um punhado de crimes bizarros.[15] Ainda assim Crowley e Gerald Kelly continuaram afirmando que uma renomada clarividente, de codinome Sibyl, lhes garantiu que o casal Jackson havia se transformado em dois “vampiros desencarnados” que incitavam impulsos de obsessão em seu dois conhecidos seus.[16] Mais tarde Yeats escreveu o poema Oil and Blood (1929), denunciando o paradoxo da miraculosa incorruptibilidade dos corpos de certos santos, exaltada pela mesma igreja católica que negava a existência de vampiros:
_In tombs of gold and lapis lazuli
Bodies of holy men and women exude
Miraculous oil, odour of violet.
But under heavy loads of trampled clay
Lie bodies of the vampires full of blood;
Their shrouds are bloody and their lips are wet.
_
_Em tumbas de ouro e lapis lazuli
Corpos de santos e santas suam
Óleo milagroso, com odor de violeta.
Mas sob grossas camadas de barro batido
Jazem corpos de vampiros cheios de sangue;
Suas mortalhas são sangrentas e seus lábios estão molhados._
Como a Ordem Hermética da Aurora Dourada frequentemente recebia palestrantes da Sociedade Teosófica e vice versa, pode ser importante conhecer o posicionamento de Helena Petrovna Blavatsky (1831-1891), Henry Steel Olcott (1875-1907), Franz Hartmann (18