O texto a seguir é de autoria de Sana Skull do blog “[Moda de Subculturas](http://modadesubculturas.blogspot.com.br/)” e vem a ser reproduzido com autorização dela.
“ _Subculturas Alternativas. Elas eram um aspecto crucial da civilização industrial nos dois séculos anteriores… mas elas se tornaram extintas._ ” William Gibson, [All Tomorrow’s Parties](https://en.wikipedia.org/wiki/All_Tomorrow%27s_Parties_%28novel%29).
“ _COILHOUSE é uma carta de amor à cultura alternativa, escrita em uma Era onde a cultura alternativa não mais existe._ ” Descrição da [revista alternativa Coilhouse](http://modadesubculturas.blogspot.com.br/2009/12/metal-couture-and-clothes.html).
Suponho que todos que lêem este blog sabem o que é uma subcultura.
Cultura significa a tradição, normalmente clássica e conservadora, um padrão de excelência a ser vivido. Já a palavra subcultura evoca um tipo de submundo, quando um grupo de pessoas faz questão de viver de forma diferente da cultura dominante e lutando contra ela. A revolta, ações ou o uso de roupas diferentes são uma forma de recusa à excelência exigida. Exemplo? Os _teddy boys, skinheads _e _punks_ quando surgiram, eram considerados ameaças à ordem pública, viviam em auto-exílio e eram a resposta heróica de jovens contra a cultura de massa.**CONTINUE LENDO >>>
As subculturas como as conhecemos hoje nasceram no mais louco século que o mundo já viu: o século XX. Sobreviveram à ele? Há quem diga que não. Há os que creem que as subculturas “morreram em 1992” quando sua estética passou a ser consumida e comercializada em massa pelas grifes _mainstream_ e morreram de fato quando as pessoas passaram a ter acesso à Internet e as ideologias foram substituídas por estéticas vazias de significado.
A definição do que sabemos e entendemos como “subculturas alternativas ” vem de estudos acadêmicos de sociólogos e antropólogos que nunca pertenceram a subcultura nenhuma. O resto vem da mídia. A mídia é especialista em focar em elementos da superfície das subculturas ao invés de sua substância, a forma como as subculturas são exibidas na mídia as torna mais exóticas e assustadoras do que elas realmente são.****
E por que não existiria mais a cultura alternativa?
Segundo o escritor Joshua Ellis, porque ela foi devorada pela monocultura. Em uma monocultura, é impossível criar qualquer subcultura que se coloque em oposição ao _mainstream_ porque o _mainstream_ simplesmente se apropria dela (explico melhor isso na postagem a seguir, a parte 2).
A cultura alternativa, embora recuse os aspectos da cultura dominante, consome objetos vendidos pelo _mainstream_ , especialmente roupas que são parte de sua “rebelião”. _Grunge_ pode ser comprado na Burberry, _Heavy Metal_ no Louboutin, Gótico na H&M e por aí vai… Cada vez mais rapidamente arte, moda e música alternativa são apropriadas e integradas pela cultura dominante. Mas há diferença entre consumo comercial e o consumo pela criativdade/originalidade. A fusão entre as subculturas e a moda não é um processo cultural e sim, comercial e econômico.
É comum ouvir da geração que é adolescente/jovem no século XXI que eles não se encaixam em nenhuma subcultura e dizem pertencer ao universo alternativo como um todo. Ao invés da identidade de grupo há a identidade fragmentada; o comprometimento e os laços com a subcultura são fracos, o que faz os jovens “trocarem” de subcultura quando bem quiserem; ao invés de pertencerem à uma subcultura por seus os valores e crenças, faz-se parte delas apenas pelo fascínio das roupas e da imagem; a auto-imagem autêntica virou uma celebração do não-autêntico enfatizando a hibridicidade e diversidade. Os jovens alternativos do passado antes defendiam com mente aberta temas tabus, os de hoje tem a mente fechada e conservadora sobre estes temas. Há a falta de uma ideologia, o desejo de não ser rotulado, o individualismo, o contrario da imagem típica e homogênea do que endende-se por _subculturas_.
Contrariando tudo acima, o livro The Post Subcultures Reader, diz que essa incorporação das subculturas pelo _mainstream_ formando a monocultura é um mito sem fundamento que subestima a colaboração multifacetada das subculturas com os grandes negócios da cultura dominante. E sugere ainda que não há resistência intrínseca ou qualidades subversivas nas subculturas. A inteção do livro é repensar e reformular o que entendemos como “subculturas”. Polêmico não?
A MONOCULTURA
A primeira parte , foi sobre algumas publicações que sugerem que a monocultura matou as subculturas em anos recentes. Para explicar o que é uma monocultura optei por traduzir um artigo que em minha opinião, é extremamente claro sobre a relação das subculturas com a pós modernidade. O artigo foi publicado na revista Coilhouse #4 sob o título de “ _Children by the Millions Wait_ ”, escrito por Joshua Ellis.
Ir contra a Igreja era _punk_ pra caramba no século XI. Parte do processo de se tornar uma aberração cultural ou um místico é ser retirado de sua zona de conforto: você está explicitamente assumindo-se como uma pessoa fora da norma e sendo um “estranho”. Não há como voltar atrás. Para as gerações pós-guerra, a transcendência e a revolução pessoal estão intrínsecamente ligados aos meios de comunicação de massa, como literatura, filmes _underground_ , _rock and roll, hip-hop_ e música eletrônica. Para mim, na escola, o caminho do excesso era _rock and roll_ juntamente com a literatura emergente _cyberpunk_ de William Gibson, Bruce Sterling e John Shirley. Naqueles dias, antes da onipresença da _internet_ , era difícil as coisas chegarem em suas mãos se você vivesse fora dos núcleos urbanos centrais dos Estados Unidos. Eu acho que grande parte do valor da contracultura, era a escassez da mesma, o mistério. Vale lembrar que, antes desta década, era difícil encontrar uma música que não estava em grandes gravadoras, filmes que não foram lançados por grandes estúdios de Hollywood ou livros de pequenas editoras. Não havia Amazon ou iTunes. Se você quisesse em alguma coisa estranha e diferente, suas opções eram severamente limitadas. O que Nick Hornby disse no filme Alta Fidelidade é absolutamente verdadeiro em mim: eu gosto das pessoas em sua maioria não por causa de quem eles são, mas por causa do que eles gostam. Se isso soa superficial, pense da seguinte maneira: em certo sentido, suas escolhas no consumo de mídia sugerem muito sobre quem você é e o que você acredita.
Com a popularização da Internet, é quase impossível não saber tudo sobre qualquer coisa nos dias de hoje. Eu tendo a acreditar que a Internet realmente matou o conceito de uma contracultura. Em vez disso, temos o que meu amigo Warren Ellis chama de monocultura : “ _Vá na sua esquina_ “, diz Ellis em seu livro em quadrinhos Transmetropolitan, “ _Você provavelmente vai ver um McDonalds, uma televisão ligada na MTV, uma loja de roupas Gap. Vá à uma esquina da uma rua em Londres e você verá a mesma coisa. O mesmo em Praga, mesmo em São Paulo, Grozny e Hobart. Isso é o que é uma monocultura. Está em todo lugar, é tudo a mesma coisa. Isso é o futuro. Isto é o que nós construímos._ “
A tatuagem e a modificação corporal são um grande exemplo. Há vinte anos, ter mangas de tatuagens em seus braços era algo muito estranho. Era relativo à motociclistas, condenados e _punks_ que não esperavam ocupar um emprego. O mesmo acontecia com os _piercings_. As únicas pessoas com _piercings_ faciais eram as aberrações de circo. Hoje, todos tem _tatoos e piercings_ , inclusive minha mãe. A loja de tatuagem deixou de ser no beco da pior parte da cidade e passou a ser uma loja de alto nível. Tatuagens eram de modo geral, culturalmente inaceitáveis no ocidente. Também não era aceitável caucasianos terem cabelos _dreads_ , moicanos ou tingidos. Ao mesmo tempo que está totalmente descolado usar seu cabelo como o de um empresário dos anos 50, está aceitável para as mulheres vestir espartilhos, vestidos de estampas florais até os tornozelos ou uma combinação de ambos. O que estamos vendo, talvez pela primeira vez na história, é um mundo em que tudo é aceitável.
Porém dentro e fora da monocultura há os que professam indignação com o declínio “moral” da sociedade, em grande parte são conservadores cristãos e islâmicos. Mas, em geral, a monocultura ignora essas pessoas, em parte porque eles tendem a não ser bons consumidores e, portanto, são praticamente invisíveis para o capitalismo (que faz a monocultura), e em outra parte parte, essas pessoas constituem a única verdadeira contracultura atual, rejeitando e rejeitada pela sociedade, marginalizados por sua falta de vontade ou incapacidade para entrar na onda mundial. Como John Walker Lindh provou alguns anos atrás, a única forma real irritar seus pais e a sociedade é começar a falar absurdos em nome de um Deus ou de outro.
Hoje em dia, estar em uma banda _punk_ é como estar em um círculo de leitura, um grupo da igreja ou um grupo de xadrez: uma maneira divertida de passar algumas noites da semana e não o ato anarquista de cuspir na cara de convenção. E então eu volto aos anos de 1991, dias pré-internet, quando calçar um Doc Martens com os laços desfeitos, ter Manic Panic no cabelo e ler romances polêmicos era uma forma de distanciar-se de tudo o que era monótono e normal sobre a sociedade. Eu percebi que a minha revolução foi maior, não porque tínhamos perdido, mas porque tínhamos vencido. Nós tínhamos refeito o mundo à nossa imagem, e o mundo não se importava mais conosco. Minha fantasia adolescente era ver um mundo conectado pelas redes globais e controlado por super nerds, um mundo que tornou-se realidade … e é muito menos interessante do que eu imaginava que fosse. Mas ainda acredito que o _rock_ _ and roll_ pode mudar o mundo, se não o mundo em geral, pelo menos o seu próprio mundo pessoal.”
A autora Sana Skull nos conta que: “- Minha intenção de fazer esta seqüencia de postagens, partiu de minha observação e reflexão sobre alguns comportamentos que tenho acompanhado da geração mais nova que eu e que se diz “alternativa”. Assim como o autor deste texto, vivi metade de minha vida numa era pré-internet e realmente o comportamento subcultural, assim como a forma que a sociedade via as pessoas alternativas está bem diferente, muito mais aceitável. Chega a ser bizarro lembrar que o maior modelo masculino da atualidade seja um cara todo tatuado apelidado de “Zombie Boy” e que as maiores modelos femininas são as que tem algo incomum ou fora da beleza padrão
Cheguei a escrever sobre isso em 2009, na postagem “Não Sou Mais Tão Estranha…, na época eu já notava há algum tempo, que algo estava ocorrendo na relação sociedade x estética alternativa.
CONSUMO, IMAGEM & MODA
A Monocultura que foi o tema do _tópico anterior_ anterior, se baseia na idéia de o capitalismo ter chegado ao ponto extremo de abraçar as subculturas como parte do _mainstream_ , já que estas deixaram de fazer resistência aos valores da cultura dominate. O capitalismo é a chave de entrada desta postagem. Para isto, foquem nos valores comerciais, econômicos e visuais dos dias de hoje; pensem em comportamento consumidor. Vivemos numa sociedade em que absolutamente tudo é fabricável, desejável e comprável.
Vivemos na Era da Imagem
Não é preciso ler, mas é preciso ver! A prova é a quantidade de blogs e redes sociais que surgiram nos último anos. _Tumblr_ é um blog cujo formato tem foco na publicação e re-publicação de imagens muitas vezes sem suas fontes de referência, um formato que passa a idéia de um mundo (de imagens) sem dono. As redes sociais _Pinterest, I (heart